A luz da sala estava acesa.

janeiro 22, 2016

A luz da sala estava acesa.

Cinquenta e seis dias depois, coração na mão, observo – de fora – teu lugar, teu cotidiano, teus cachorros, os objetos, a rua e a luz da sala acesa. Estava tudo lá, inclusive você e sua risada, e seu cigarro na mão canhota a reclamar de algo com aquela cara de abuso de quem já acorda cansada com o dia de chuva fina e a repetição dos dias enfadonhos. Seu telefone tocaria, com a nova música da Marisa Monte, e eu te diria hum, olha só, tão antenada com a conectividade.

Olhei pela janela de vidro e não te vi, mas te reconheci. Eu te reconheço em tudo: quando mexo em meu cabelo, quando me olho no espelho e me vejo repetindo pensamentos/frases/trejeitos que seriam seus. Te reconheço em tudo, mamãe.

Daí de onde você está dá pra ouvir Legião Urbana?! Tá ouvindo junto comigo?! Eu escuto e espero a porta do quarto abrir e esperar indelicadamente você me fuzilar com a pergunta: com o que você está triste?! Eu lhe conheço: quando fica ouvindo Renato Russo é porque tá deprê. Talvez te abraçasse, talvez dissesse sai daqui, mãe…

Subi as escadas, quase sem respirar, não você não estava ali. Foi preciso resolver as burocracias. Escuto que sou a sua cara e me arrepio. É, sou sim. Olho de soslaio a casa toda. Relembro cenas, arrumações, dias e cores. Volto a negociação e antes de sair descemos juntas os degraus. Olho outra vez a casa, a janela, os cachorros que me latem e sabem quem eu sou. A luz acesa, a rua vazia, os manguezais, a avenida, o vento no cabelo e essa saudade.

Dessa vez, a luz da sala estava acesa, mamãe.

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acabou: chorare

fevereiro 17, 2009

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cansei de tanto fazer doce. vamos brincar de outra coisa, beibe.